Gripe Aviária: informação e atitude

27/03/2006

Artigo opinativo
Gripe aviária: informação e atitude

Luiz Hilton Temp
Diretor da Cooperativa Central Aurora Alimentos

A preocupação com a influenza aviária (gripe aviária), que estava circunscrita à grande, avançada e complexa cadeia avícola, tornou-se, agora, uma psicose global. Enfrentá-la requer informação e atitude. Colecionamos uma série formidável de informações sobre a patologia, mas as atitudes ainda são tímidas, principalmente do setor público que oscila entre a inaptidão e a omissão.

O tempo esteve a nosso favor, até aqui. Essa doença infecciosa de aves causada por cepas do tipo A do vírus da influenza foi identificada pela primeira vez na Itália, em 1901, e ocorre em todo o mundo. Há nove anos (1997), em Hong Kong, ocorreu o primeiro caso de infecção de humanos. Todas as aves podem ser infectadas, embora algumas espécies sejam mais resistentes que outras. Contatos diretos ou indiretos entre plantéis domésticos e aves aquáticas migratórias tem sido apontado com freqüência como a causa da transmissão da doença. A transmissão para pessoas ocorre por contato direto com aves vivas, via fezes ou secreções. O vírus da influenza, principalmente o H5N1, pode sofrer mutações e o grande temor da comunidade científica mundial é que o vírus “aprenda” a transmitir-se entre humanos.

A humanidade, no curso de sua história, enfrentou várias pandemias. Baseados em padrões históricos, acredita-se que pandemias de influenza possam ocorrer três a quatro vezes por século. Seu efeito devastador é impressionante: em 1918, na gripe espanhola, morreram 50 milhões de pessoas; em 1957 na gripe asiática, foram 4 milhões de vítimas e, em 1968, na chamada gripe de Hong Kong, 2 milhões de vidas humanas foram ceifadas.

Apesar de todos os alertas dos cientistas, o mundo parece não ter se preparado o suficiente. Por outro lado, especialistas acreditam que outra pandemia é inevitável e, possivelmente, iminente. Não há como prevê-la. Estima-se que a OMS - no caso de surgir um novo subtipo de vírus capaz de transmitir-se de homem à homem - levaria quatro meses para produzir uma nova vacina em quantidade significativa. Nesse interregno, a doença vergastaria muitos países e em seu rastro deixaria muitos mortos.

Em alguns países houve uma mobilização sem precedentes de governos, setor privado e cadeia produtiva para criação e implantação de mecanismos de defesa da população e dos plantéis. No Brasil, o setor produtivo tomou a iniciativa e, muito antes do problema entrar na pauta de preocupações do governo, adotou uma série de rígidas medidas para garantir a biossegurança de todas as instalações da cadeia produtiva - granjas, incubatórios, abatedouros e unidades industriais. O ingresso de pessoas estranhas ao processo produtivo ficou rigorosamente proibido.

Na área governamental, entretanto, as coisas continuam a passo de tartaruga. Em 2004, a cadeia produtiva propôs ao governo a criação do sistema de regionalização sanitária da avicultura brasileira. Esse sistema cria condições para - caso uma doença infecto-contagiosa surja em uma região do país - fique ali restrita e não atinja outras áreas do território nacional. Dessa forma, além do combate intensivo à zoonose naquele local, as chances de controlar um foco serão muito maiores pois as restrições ao trânsito interestadual, simultaneamente a um protocolo de procedimentos e providências, dificultarão a transmissão da doença para outros Estados. Além disso, as demais regiões do país não afetadas ou comprometidas pela doença continuariam exportando, preservando-se, assim, o mercado internacional duramente conquistado.

Cada Estado da União federal ou grupo de Estados poderá se transformar em região sanitariamente distinta, com a criação das estruturas necessárias, como laboratórios, departamentos, equipes de controle e fiscalização e a adoção de todas as medidas para implementação de regionalização. Haverá rigoroso controle sobre a circulação de material genético e a proibição do trânsito interestadual de aves destinadas ao abate, vísceras de aves in natura, penas, resíduos de incubatório in natura, cama de aviário e esterco das poedeiras

A proposta foi elaborada em sólidas bases científicas, discutida e aprovada pelo setor avícola e, finalmente, levada ao governo federal a quem compete apresentá-la à Organização Internacional de Epizootias. É essencial que a comunidade econômica internacional - e, em especial, os países importadores - aceitem e reconheçam regiões sanitariamente distintas.

A letargia endêmica do governo não permitiu, ainda, identificar a premência da qual se reveste esse tema. O projeto já deveria ter sido apresentado à OIE, mas, agora, somente agora, o Ministério da Agricultura colocou-o em regime de consulta pública. Toda a cadeia produtiva está convicta que a implementação do programa de regionalização é a única solução para a sobrevivência da avicultura brasileira face a possibilidade de um impacto humano e econômico fulminante, de origem sanitária. É hora de as atitudes ganharem coerência com os discursos. É hora de absoluta priorização da defesa sanitária animal.

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