Gripe aviária: o maior problema é a desinformação

15/03/2006

A gripe aviária assusta, mas provavelmente o mundo não terá uma pandemia. Ao contrário do que alardeiam alguns, o Brasil, em razão de suas privilegiadas condições geográficas, tem muita chance de não ser atingido pela doença. E, se caso a doença chegar, o país poderá controlá-la e erradicá-la porque detém a mais avançada avicultura industrial do planeta.

Essa visão otimista, mas fulcrada em dados, fatos e análise científica, é a interpretação de um especialista em gripe aviária, o médico veterinário Sadi Domingos Marcolin, coordenador do Comitê de Sanidade Avícola das Agroindústrias do Estado de Santa Catarina e gerente de avicultura da Cooperativa Central Aurora Alimentos.
“O maior problema é a desinformação”, destaca ele nesta elucidadora entrevista:

Quais são as condições geográficas e de estrutura de produção econômica que, pelo menos teoricamente, deixariam o Brasil em condições privilegiadas no sentido de NÃO registrar ocorrência de gripe aviária em seu território?
Sadi Marcolin - Partimos do princípio que a Influenza Aviária tem como principal hospedeiro as aves silvestres (patos selvagens, cisnes, gansos, etc) e que o maior número de achados do vírus e mortalidades de aves têm ocorrido nas aves selvagens. É só observar os casos ocorridos nos últimos meses na Europa e África, somente em aves selvagens. As rotas de aves migratórias poderia ser o maior risco do vírus chegar a um país. O Brasil neste particular é um país privilegiado, pois as aves migratórias são oriundas do norte do continente, local onde o vírus H5N1 (vírus mais patogênico da doença) ainda não chegou. Neste raciocínio, primeiro o vírus teria que chegar ao norte do continente (Canadá e EUA). E, se chegar nestes países que possuem um bom sistema de defesa, poderia ser destruído e não chegar na América do Sul.
O vírus tem tido uma ocorrência mais freqüente nos países com inverno rigoroso e muita neve. O vírus permanece pouco tempo viável ao calor. O Brasil é um país de clima quente, sendo assim, o H5N1 resistiria menos tempo no meio ambiente. As aves migratórias que aqui chegam, não são as mesmas espécies que estão infectadas, na Europa e Ásia.

E as condições de Estrutura Econômica?
Marcolin - Se olharmos a estrutura da posição avícola no Brasil, iremos ver que avicultura Industrial Brasileira é muito tecnificada, trabalhando com rígidos controles de biossegurança nas propriedades avícolas. Exemplo: todas as aves estão em aviários fechados, sendo que as aves silvestres não têm acesso. As informações de biossegurança são fornecidas aos avicultores pelos profissionais das empresas a toda hora.

Pode se dizer, então, que a avicultura brasileira, por ser uma das mais desenvolvidas do mundo, não sofre os mesmos riscos que a avicultura praticada na Ásia, por exemplo, para desenvolver a doença. Quais são esses nossos diferenciais de qualidade?
Marcolin - Exatamente. Temos um país com extensão continental e a nossa densidade populacional é muito menor que a dos países asiáticos. Criamos nossas aves nos conceitos mais modernos de prevenção de doenças, ou seja, o avicultor que cria frangos, não pode ser criador de outras aves. Os asiáticos trabalham com sistemas diferentes, onde criam frangos, patos, gansos e aves na mesma propriedade. Criamos nossos frangos em galpões fechados. Os asiáticos normalmente possuem aves soltas, ou em galpões não fechados. Aves silvestres têm acesso às criações na maioria dos casos. Criamos nossas aves com idade única nas granjas, quando um lote de frango vai ao abate, não permanece nenhuma ave viva na propriedade. Assim não perpetuamos as doenças na propriedade, esta prática não é comum nos países asiáticos.
Além disso, no Brasil as pessoas ficam pouco tempo em contato com as aves, visto que os aviários possuem alta tecnologia em equipamentos, tornando desnecessário contato do produtor com as aves. Nos países asiáticos existe um contato prolongado e estreito com as aves, pois a avicultura não é muito tecnificada.

Em que condições, objetivamente, ocorre a transmissão do vírus H5N1 do animal ao ser humano?
Marcolin - O que podemos observar pelas pessoas que contraíram o vírus é que em todos os casos elas tiveram contato prolongado com as aves doentes . Pessoas vivendo junto com as aves, em alguns casos pelo frio rigoroso (neve), as aves eram colocadas dentro de casa. A transmissão do vírus só ocorre de aves contaminadas para pessoas que têm contato com fezes e secreções destas aves. E nos casos registrados até agora, onde houve infecção, existia um contato estreito com a ave doente.

Está comprovado: Não existe qualquer possibilidade de alguém contrair a doença comendo carne de frango?
Marcolin - Não tem possibilidade de contrair a influenza aviária ao comer a carne de frango. O vírus é facilmente destruído pelo calor. O cozimento, fritura ou qualquer forma de tratamento por calor, destrói o vírus.

É verdade que a ave que MENOS contrai o vírus é o frango?
Marcolin - É verdade. Das aves que podem contrair o vírus da Influenza Aviária, o frango industrial é o que tem menor probabilidade. O motivo é simples, o frango industrial (frango de granja) não tem contato com aves selvagens, que são as aves onde o vírus foi mais encontrado nos casos já registrados até hoje no mundo.

Conclui-se, então, que o consumo de carne de frango caiu em alguns países por PURA DESINFORMAÇÃO?
Marcolin - Sim. O pior inimigo é a desinformação ou a informação veiculada de forma errônea. Um exemplo disto é que em 20 países que já tiveram o vírus recentemente, como Europa e África, nenhuma pessoa foi infectada. Na Rússia tivemos influenza aviária e nenhuma pessoa foi infectada. Na Bulgária nenhuma pessoa se infectou com o vírus. No Japão tivemos influenza aviária mas nenhuma pessoa morreu . Na Coréia do Sul tivemos influenza aviária, porém ninguém morreu. Na Mongólia tivemos e nenhuma pessoa foi infectada. Na Grécia nenhuma pessoa foi infectada. Na Itália nenhuma pessoa foi infectada. Na Eslovênia nenhuma pessoa foi infectada. No Reino Unido nenhuma pessoa foi infectada. Na Romênia nenhuma pessoa foi infectada. Na Ucrânia nenhuma pessoa foi infectada. Na Alemanha nenhuma pessoa foi infectada. No Cazaquistão nenhuma pessoa foi infectada. Na Nigéria nenhuma pessoa foi infectada. No Niger nenhuma pessoa foi infectada.

As medidas que a cadeia produtiva (setor privado) adotou no Brasil são corretas, são suficientes, estamos preparados para combater a doença?
Marcolin - As medidas são boas, mas necessitamos aprimorar e fiscalizar mais, um exemplo bom destas medidas é o Estado de Santa Catarina que reforçou significativamente o contingente de médicos veterinários na defesa sanitária do estado. Devemos continuar melhorando o nosso sistema de biossegurança nos aviários, este é um trabalho que a cada dia deve ser intensificado. É muito mais barato prevenir.

E as medidas governamentais, por que demoram tanto?
Marcolin - As medidas governamentais foram lentas e tímidas. Porém, tivemos algumas que vale destacar: proibição na importação de aves vivas dos países com a doença; importação somente de ovos férteis para multiplicação de material genético; controle de matéria orgânica em pontos e agropontos. E, o mais importante, a publicação e consulta pública da portaria nº 48 do Ministério da Agricultura, que cria e regulamenta a prevenção e controle da doença de New Castle e a prevenção da Influenza Aviária. Demorou dois anos, mais saiu.

O programa de regionalização será efetivamente implantado? Quando? A OIE irá reconhecê-lo?
Marcolin - Sim, o programa da regionalização será implantado nos Estados que adquirirem a portaria nº 48 e que criarem as condições para tal. Quando? Quando vencer o prazo da consulta pública da portaria nº 48 que é de 30 dias após publicação no Diário Oficial da União (foi dia 21/02/2006). Os Estados que estiverem adequados podem pedir esta condição. A OIE irá reconhecê-lo? Pela lógica sim, mas quem vai decidir é a OIE. Já que existem alguns países no mundo que têm esta condição. Os países membros da União Européia , os Estados Unidos da América e a Holanda estão regionalizados, sendo que a Holanda é um país com área territorial três vezes menor que o Estado do Paraná e está regionalizado. A probabilidade de sermos reconhecidos com a regionalização é muito boa.

O número reduzido de mortes sugere que não existe uma pandemia, nem uma epidemia?
Marcolin - Até o momento houve 94 mortes por Influenza Aviária no mundo de um total de 6 bilhões de habitantes do planeta. Estas 94 mortes ocorreram num período de 10 anos desde que a doença foi notificada como H5N1.

Ora leigos, ora especialistas dizem que o vírus pode mutar e tornar-se transmissível de homem a homem. A própria OMS fala dessa possibilidade. Qual a real probabilidade de isso ocorrer?
Marcolin - Qualquer vírus pode mutar, isto não é diferente para o vírus da Influenza Aviária. Ele pode mutar para uma forma mais severa da doença ou para uma forma mais suave. Inclusive já tem pesquisa neste sentido, pois são inúmeros os países que tiveram a doença em aves silvestres e não atingiu aves domésticas e seres humanos. O que seria isto, uma suavização do vírus? Nestes últimos dez anos, após o descobrimento do vírus, ele não mutou.

Seria possível repetir-se uma nova "gripe espanhola" no mundo, hoje? Por quê?
Marcolin - Não acredito. Porque as condições da medicina de hoje são totalmente diferentes daquelas do ano de 1918. Hoje temos mais medicamentos, vacinas e melhores condições de enfrentar as doenças. A medicina de hoje é infinitamente superior.

É correto afirmar que todas as pandemias até hoje registradas eram de origem aviária?
Marcolin - Provavelmente se os roedores como os ratos, fossem incriminados por pandemias, estaria um pouco mais próximo da verdade. Tivemos no mundo a peste bubônica (transmitida pelo rato). As aves não podem ser incriminadas, especialmente porque a Influenza Aviária até o momento não pode ser classificada como pandemia.

Na sua avaliação, a imprensa está sendo sensacionalista na abordagem da gripe aviária?
Marcolin - Acho que não só a imprensa, acho que deveríamos refletir sobre algumas atitudes da imprensa e de algumas pessoas que têm falado muitas inverdades. Um exemplo típico foi o ministro da Saúde, José Saraiva Felipe, que falou na mídia que é bobagem tentar conter o vírus. E logo a seguir, gastou, segundo a mídia, R$ 90 milhões de reais no medicamento Tamiflu para controlar a Influenza. Como pode uma pessoa em sã consciência gastar 90 milhões de reais com um medicamento para controlar uma doença que não existe no país. Sabendo que todo dia morrem inúmeras pessoas no Brasil por falta de remédios para diabete, hipertensão, câncer, etc, e que nos postos de saúde, os medicamentos estão em falta para doenças que estão presentes em todas as cidades do Brasil. Além de fazer um tremendo mal a economia dizendo que a doença virá, ainda joga 90 milhões de reais na lata do lixo, pois se a doença não vir, o remédio que tem data de vencimento vai para o lixo.


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